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domingo, 23 de março de 2014

Você tem "sangue farrapo"?

Existe um culto ao passado aguerrido do RS, digo aguerrido e não glorioso porque nem só de vitórias e glórias se forjou a estirpe gaúcha, mas de lutas contínuas e de batalhas em nome de um país que poucas vezes reconheceu a importância e o valor do povo gaúcho para a manutenção do seu território e soberania. Os gaúchos só eram lembrados quando precisavam de alguém para defender o Brasil, os sul-riograndenses estavam perto dos problemas (fronteiras e seus conflitos), mas longe das soluções (governo brasileiro) e isso parece persistir até hoje.

A beleza da cultura gaúcha

No entanto, algumas coisas mudaram. Embora haja um tremendo orgulho e reconhecimento por parte dos gaúchos de nossos heróis, nossa história, nossas tradições e cultura, ainda que com frequência sejam compartihadas fotos e frases em alusão ao decênio heróico, que se use bota, bombacha, vestido e faixa, que se ande a cavalo e se cante o campo, os sentimentos com violão e gaita, será que ainda temos o sangue farrapo em nossas veias? Será que Bento Gonçalves da Silva assistiria impassível, tal como nós, um Rio Grande do Sul sucateado, endividado, com uma economia pequena, altos impostos. Será que Antônio de Souza Neto ia se resignar a compartilhar um selfie com uma placa dizendo "não é só pelos 20 centavos" ou "queremos hospitais padrão FIFA"?

Bento Golçalves se contentando em fazer um cartaz:
não consigo imaginar!
Me pergunto e repasso o questionmento para vocês: será que não estamos usando o chapéu alheio (talvez o chapéu de Onofre Pires ou David Canabarro), para coletar o brilho de uma estrela cadente para ofuscar um presente decadente? 
Será que é suficiente encilhar o pingo no 20, sorver um amargo e dizer que ama o pago para prestar tributo a estes homens e mulheres valentes que entregaram seu prestígio, dinheiro e os melhores anos de suas vidas para lutarem como samurais, contra as metralhadoras do império ao qual serviram tanto?

"Sirvam nossas façanhas de modelo a toda terra!"
Os radicais vão dizer que o RS é o único lugar
em que até os mendigos fazem questão de dormir enrolados na bandeira.
Se as coisas estão assim, e não fazemos nada, se a indignação vem com as notícias do Jornal Nacional, mas são esquecidas pela novela e todas as bobagens que se alternam uma após a outra religiosamente, se você se acostumou  com o inaceitável, será que você foi forjado ainda naqueles moldes de Flores da Cunha e Honório Lemes, homens honrados e leais até com os inimigos?
Será que eu tenho algo da fibra de meus heróis quando vivo num lugar em que medíocres se espalham feito erva daninha, onde a malandragem é virtude e não sou forte o suficiente para mudar isso?

Garibaldi disse dos gaúchos de outros tempos:  

"Quantas vezes fui tentado a patentear ao mundo os feitos assombrosos que vi realizar por essa viril e destemida gente, que sustentou por mais de nove anos contra um poderoso império a mais encarniçada e gloriosa luta!"

Leia a carta na íntegra, e reflita: somos ainda aquele povo do qual Garibaldi falou? Ou somos como os atuais membros da Família Real Inglesa: herdamos o título de gaúchos, mas são outros o que governam nossa terra, enquanto o que resta é exigir respeito evocando os velhos e áureos tempos?
Precisamos tomar muito cuidado, será que estamos como o gaúcho da charge: cheio de orgulho, mas com os golpes que levamos diariamente remendados com retalhos de algum feito histórico.

Na frente: a estampa de um gaúcho, no reflexo: também!

Um abraço da gaúcha orgulhosa, mas realista,
Fernanda



Rio Grande do Sul, por Giuseppe Garibaldi

O "herói de dois mundos" (o velho mundo - Europa, e o novo mundo - América), Garibaldi, expressou em uma carta endereçada a Domingos de Almeida, um pouco de suas lembranças e impressões acerca do Rio Grande do Sul.
Orgulho de ser gaúcha e destes grandes homens, heróis farroupilhas.





Modena, 10 de setembro de 1859.

Meu prezado amigo sr. Almeida,

Quando eu penso no Rio Grande, nessa bela e cara província, quando no acolhimento com que fui recebido no grêmio de suas familias, onde fui considerado filho: quando me lembro das minhas primeiras campanhas entre vossos valorosos concidadãos e os sublimes exemplos de amor pátrio e abnegação que deles recebi, eu fico verdadeiramente comovido. E esse passado de minha vida se imprime em minha memória como alguma cousa de sobrenatural, de mágico, de verdadeiramente romântico.
Eu vi corpos de tropas mais numerosos, batalhas mais disputadas; mas nunca vi, em nenhuma parte, homens mais valentes, nem cavaleiros mais brilhantes que os da bela cavalaria rio-grandense, em cujas fileiras aprendi a desprezar o perigo e combater dignamente pela causa sagrada das nações. Quantas vezes fui tentado a patentear ao mundo os feitos assombrosos que vi realizar por essa viril e destemida gente, que sustentou por mais de nove anos contra um poderoso império a mais encarniçada e gloriosa luta!
Não tenho escrito semelhante prodígio por falta de habilitações, porém aos meus companheiros de armas por mais de uma vez tenho comemorado tanta bravura, nos combates, quanta generosidade na vitória, tanta hospitalidade, quanto afago aos estrangeiros, e a emoção que minha alma, então ainda jovem, sentia na presença e na magestade de vossas florestas, da formosura de vossas campinas, dos viris e cavalheirescos exercícios de vossa juventude corajosa; e, repassando pela memória as vicissitudes de minha vida entre vós, em seis anos de ativíssima guerra e da prática constante de ações magnânimas, como em delírio brando:
-Onde estão agora esses buliçosos filhos do Continente, tão magestosamente terríveis nos combates? Onde Bento Gonçalves, Neto, Canabarro, Teixeira e tantos valorosos que não lembro?
-Oh! Quantas vezes tenho desejado nestes campos italianos um só esquadrão de vossos centauros avezados a carregar uma massa de infantaria com o mesmo desembaraço como se fosse uma ponta de gado?
-Que o Rio Grande ateste com uma modesta lápide o sítio em que descansam seus ossos. E que vossas belíssimas patrícias cubram de flores esses santuários de vossas glórias, é o que ardentemente desejo.
-Eu muito me lembro, meu digno e caro amigo, da bondade generosa com que fui honrado por vós, no tempo em que tão dignamente ocupastes uma das pastas do ministério da república, e tenho verdadeira saudade, como gratidão dos beneficios recebidos de vós e de vossos companheiros e concidadãos na minha estada no Rio Grande. Por mim abraçai a todos esses amigos e mandai em toda a ocasião ao vosso verdadeiro amigo

“José Garibaldi” ‘
(Giussepe Garibaldi)