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quarta-feira, 9 de abril de 2014

Falta de empregos em Livramento: um convite à mudar de cidade

Nos últimos anos a taxa de desemprego no país caiu: muitas obras públicas e grandes eventos como a Copa do Mundo e as Olimpíadas aquecem a economia e geram novos postos de trabalho.

Mas essa situação não se reflete em Livramento. Mesmo com a instalação da Usina Eólica e da Universidade Federal do Pampa não houve um significativo aumento no número de empregos formais para cidadãos fronteiriços, pelo contrário: estes acontecimentos geraram uma tremenda inflação no setor imobiliário aumentando ao custo de vida dos santanenses.



Shopping, reformas, construções de prédios, inauguração de lojas, nada disso parece ter impactado de modo significativo no surgimento de novas oportunidades de emprego na cidade. Mesmo os estudantes que buscam estágio encontram grande dificuldade, tanto para conquistar uma vaga, como para manter-se nela devido ao baixo valor pago a quem atua como estagiário. Na fronteira ainda não adotou-se a prática de contratar trainees, o que seria uma grande evolução na vida profissional dos jovens e uma revolução no modo "Livramento" de administrar uma empresa.


Empresários queixam-se ainda que muitas vezes há vagas que não são preenchidas devido a falta de qualificação profissional, ofícios considerados simples como padeiro, marceneiro, entre outros, parecem não despertar o interesse das pessoas, encontrar alguém que instale um chuveiro ou arrume o encanamento da cozinha é uma raridade. O que gera a contratação de trabalhadores de outras cidades para trabalhar em obras no município, por exemplo.


Os servidores de uma das agências mais conhecidas em Livramento o Sistema Nacional de Emprego- SINE, relatam que há uma grande procura por vagas, atendendo cerca de 350 pessoas por semana, dentre os atendimentos estão pedidos seguros desemprego, emissão de carteira de trabalho e busca de oportunidades. Segundo funcionários, cerca de 200 pessoas são colocadas no mercado de trabalho diretamente pela agência.

O SINE é um programa do Governo Federal que dispõe de um conjunto de ações voltadas para facilitar a inserção ou reinserção dos trabalhadores no mercado de trabalho, além de garantir a sobrevivência do trabalhador durante o tempo de procura de um novo emprego, através do cadastramento e encaminhamento para emprego e do atendimento ao Seguro-Desemprego.

Alguns Santanenses coversaram com nossa repórter especial, Daiane Pampim e relataram a ela suas dificuldades em conseguir uma oportunidade de trabalho em Santana do Livramento. Sem opção, muitos decidem sair da cidade e procurar novos rumos, novas oportunidades para conquistar seus objetivos e obter uma vida melhor.

Leonardo Braz, 28 anos, Santanense com muito orgulho, nos conta um pouco de sua história
"Tive que deixar minha terra por não ter oportunidade de emprego, procurei vários meses e não encontrei. Resolvi ir a Caxias do Sul tentar a sorte. Chegando lá, passei muito trabalho, tinha dias que dava vontade de desistir, mas graças aos meus amigos e familiares que estão em Livramento, sempre me dando força e dizendo que eu ia conseguir, fui ficando. Hoje já se passaram 5 anos. Trabalho na empresa Marcopolo, conquistei muitas vitórias graças à força de vontade que todo santanense tem, pena que em nossa cidade as oportunidades sejam raras.
Espero um dia ter emprego para toda população, pois na minha empresa são centenas de santanenses, que poderiam estar enriquecendo nossa cidade.
Um dia pretendo voltar para Livramento, mais cedo ou mais tarde, pois é o meu chão." Relata de maneira emocionada, Leonardo.

Priscila Rodrigues tem 22 anos, e há 4 anos deixou Livramento por falta de emprego.
Priscila nos conta: "Na verdade saí de Livramento porque meu esposo mesmo trabalhando, ganhava muito pouco, trabalhava ganhando só meio salário. Jamais conseguiríamos viver com este salário, se eu ficasse parada sem trabalhar.
Então fomos convidados, por um amigo, para tentar a vida em Capão da Canoa. Não pensamos duas vezes, e fomos em busca de nosso destino.
Chegando lá, logo nos primeiros dias já estávamos empregados e com um bom salário, digamos que bem alto.
Mesmo conseguindo nos estruturarmos, a saudade de nossa terra é muito grande. Temos toda a nossa família em Livramento, mas não poderíamos voltar, pois a nossa Fronteira da paz é maravilhosa, mas não nos abre novas oportunidades.
Se não fosse por isso, já teríamos voltado a morar na nossa Santana."

Carin Valéria tem 35 anos, e nos conta motivo que a faz permanecer em Livramento
apesar de todas as dificuldades:



"Tenho dois filhos menores de idade sob minha guarda, sou sozinha pra educá-los, o pai deles ajuda no sustento, mas por mais que eu faça por eles continuo achando pouco, então para ajudar a aumentar a renda e também para aumentar minha autoestima, resolvi procurar emprego. Quero sentir que faço parte da sociedade, mas realmente está sendo mais difícil do que pensei. Desde junho tenho largado currículos por inúmeros lugares, geralmente vou a lugares que eu sei que estão contratando, mas mesmo assim está difícil.
Já deixei currículos em tantos lugares que perdi a conta, fui chamada para algumas entrevistas, mas ainda não consegui nada, não sei se é preconceito pela idade ou algum outro motivo, pois sou qualificada e pronta para ocupar algum cargo que se encaixe com meu perfil.
Seguirei tentando. Não pretendo sair da minha cidade, gosto daqui."



É triste constatar essa situação que é praticamente um convite para mudar-se de cidade, meu abraço fronteiriço aos conterrâneos que sofrem de saudade desta terra, e Carin te digo que se sofres preconceito pela idade só pode ser por excesso de juventude: 35 anos é uma guria ainda! Que as forças de todos os que buscam uma existência digna, um trabalho honesto, sejam renovadas e suas esperanças atendidas.

Agradecimento especial à Daiane Pampim que colheu os depoimentos e sugeriu a pauta.

Abraços,
Fernanda Araújo

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

O valor da memória



               Aí está algo extremamente complexo na vida: a memória!
Se sua importância é indiscutível, também é ponto pacífico que a memória é um fator que complica a vida de qualquer um.
Nós não mandamos na nossa memória. Há quem faça cursos, terapia e otras cositas más para tentar doma-la, mas mesmo sabendo da dificuldade em lograr resultados neste sentido, não raro, nos ofendemos com as memórias alheias.
Com as memórias e com os esquecimentos alheios, diga-se de passagem!
               Quantas brigas já houveram porque a esposa lembra que namorou um rapaz muito antes de conhecer o atual marido, isso não faz diferença na vida dela, mas está ali, registrado na memória. E o marido não se conforma, acha que lembrar significa algo, e traz mais a tona as lembranças que pensa combater.
Sem contar todas as discussões por esquecer data de aniversário do casamento, do primeiro beijo e tantas pequenas ou grandes coisas que atormentam nossa mente refém de uma memória incontrolável.
               Há lembranças que atormentam, outras que confortam, e as vezes uma mesma lembrança pode trazer emoções bem diferentes, dependendo da ocasião, (ou da época do mês, para algumas mulheres!).
Mas independente disso, considero muito importante um povo ter memória. Como bem disse tio Nelson, certa vez, “meus ancestrais [...] foram bem mais que a história conta pra nossa gente”.
         Estou de férias, na Serra Gaúcha, e – apaixonada por arte como sou – tenho visitado muitos museus e exposições. Em especial uma visita que fiz ao museu da FEB, em Caxias do Sul, foi tocante. Ler e assistir os depoimentos dos nossos Pracinhas, que tanto me orgulham, e estar em contato com o material utilizado por eles, me fez pensar que estar ali dignifica suas batalhas com um brilho novo, não o das explosões, nem o da neve que cobria a Itália que eles ajudaram a libertar, mas o brilho do meu olhar, um brilho de gratidão e renovada admiração, um brilho de orgulho por ser gaúcha e brasileira como eles, por desejar a paz sem fugir da luta.
         Fica um apelo para que os santanenses tenham memória e reconheçam, preferencialmente em vida, as pessoas dignas de aplausos, carinho e respeito.

Um forte abraço,
Fernanda